Quinta-feira, 17 de Maio de 2012
MAIO 17

 

Estás Só


Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge. 
Mas finge sem fingimento. 
Nada 'speres que em ti já não exista, 
Cada um consigo é triste. 
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas, 
Sorte se a sorte é dada. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa



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Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
MAIO 16

 

Alma serena, a consciência pura, 
assim eu quero a vida que me resta. 
Saudade não é dor nem amargura, 
dilui-se ao longe a derradeira festa. 

Não me tentam as rotas da aventura, 
agora sei que a minha estrada é esta: 
difícil de subir, áspera e dura, 
mas branca a urze, de oiro puro a giesta. 

Assim meu canto fácil de entender, 
como chuva a cair, planta a nascer, 
como raiz na terra, água corrente. 

Tão fácil o difícil verso obscuro! 
Eu não canto, porém, atrás dum muro, 
eu canto ao sol e para toda a gente. 

Fernanda de Castro, in "Ronda das Horas Lentas"



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Terça-feira, 15 de Maio de 2012
MAIO 15

 

 

 

Sofro de não te Ver

 


Sofro 
de não te ver, 
de perder 
os teus gestos 
leves, lestos, 
a tua fala 
que o sorriso embala, 
a tua alma 
límpida, tão calma... 

Sofro 
de te perder, 
durante dias que parecem meses, 
durante meses que parecem anos... 

Quem vem regar o meu jardim de enganos, 
tratar das árvores de tenrinhos ramos? 

Saúl Dias, in "Sangue (Inéditos)"



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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
MAIO 14

 

 

Noite de Saudade


A Noite vem poisando devagar 
Sobre a Terra, que inunda de amargura ... 
E nem sequer a bênção do luar 
A quis tornar divinamente pura ... 

Ninguém vem atrás dela a acompanhar 
A sua dor que é cheia de tortura ... 
E eu oiço a Noite imensa soluçar! 
E eu oiço soluçar a Noite escura! 

Por que és assim tão escura, assim tão triste?! 
É que, talvez, ó Noite, em ti existe 
Uma Saudade igual à que eu contenho! 

Saudade que eu sei donde me vem ... 
Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ... 
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!! 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"



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Domingo, 13 de Maio de 2012
MAIO 13

 

Navio que Partes para Longe


Navio que partes para longe, 
Por que é que, ao contrário dos outros, 
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti? 
Porque quando te não vejo, deixaste de existir. 
E se se tem saudades do que não existe, 
Sinto-a em relação a cousa nenhuma; 
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa



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Sábado, 12 de Maio de 2012
MAIO 12

 

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

 


 

A minha saudade tem o mar aprisionado 
na sua teia de datas e lugares. 
É uma matéria vibrátil e nostálgica 
que não consigo tocar sem receio, 
porque queima os dedos, 
porque fere os lábios, 
porque dilacera os olhos. 
E não me venham dizer que é inocente, 
passiva e benigna porque não posso acreditar. 
A minha saudade tem mulheres 
agarradas ao pescoço dos que partem, 
crianças a brincarem nos passeios, 
amantes ocultando-se nas sebes, 
soldados execrando guerras. 
Pode ser uma casa ou uma rede 
das que não prendem pássaros nem peixes, 
das que têm malhas largas 
para deixar passar o vento e a pressa 
das ondas no corpo da areia. 
Seria hipócrita se dissesse 
que esta saudade não me vem à boca 
com o sabor a fogo das coisas incumpridas. 
Imagino-a distante e extinta, e contudo 
cresce em mim como um distúrbio da paixão. 

José Jorge Letria, in "A Metade Iluminada e Outros Poemas"




Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
MAIO 11

 

 

Foi um Momento


Foi um momento 
O em que pousaste 
Sobre o meu braço, 
Num movimento 
Mais de cansaço 
Que pensamento, 
A tua mão 
E a retiraste. 
Senti ou não ? 

Não sei. Mas lembro 
E sinto ainda 
Qualquer memória 
Fixa e corpórea 
Onde pousaste 
A mão que teve 
Qualquer sentido 
Incompreendido. 
Mas tão de leve!... 

Tudo isto é nada, 
Mas numa estrada 
Como é a vida 
Há muita coisa Incompreendida... 

Sei eu se quando 
A tua mão 
Senti pousando 
‘Sobre o meu braço, 
E um pouco, um pouco, 
No coração, 
Não houve um ritmo 
Novo no espaço? 
Como se tu, 
Sem o querer, 
Em mim tocasses 
Para dizer 
Qualquer mistério, 
Súbito e etéreo, 
Que nem soubesses 
Que tinha ser. 

Assim a brisa 
Nos ramos diz 
Sem o saber 
Uma imprecisa 
Coisa feliz. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"



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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
MAIO 10

 

Sonho. Não Sei quem Sou

 


 

Sonho. Não sei quem sou neste momento. 
Durmo sentindo-me. Na hora calma 
Meu pensamento esquece o pensamento, 
Minha alma não tem alma. 

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo 
Parece que erro. Sinto que não sei. 
Nada quero nem tenho nem recordo. 
Não tenho ser nem lei. 

Lapso da consciência entre ilusões, 
Fantasmas me limitam e me contêm. 
Dorme insciente de alheios corações, 
Coração de ninguém. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"



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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
MAIO 9

 

O Amor


 

Estou a amar-te como o frio 
corta os lábios. 

A arrancar a raiz 
ao mais diminuto dos rios. 

A inundar-te de facas, 
de saliva esperma lume. 

Estou a rodear de agulhas 
a boca mais vulnerável 

A marcar sobre os teus flancos 
o itinerário da espuma 

Assim é o amor: mortal e navegável. 

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"



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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
MAIO 8


Nada Nos Falta, porque Nada Somos


Ao longe os montes têm neve ao sol, 
Mas é suave já o frio calmo 
         Que alisa e agudece 
         Os dardos do sol alto. 

Hoje, Neera, não nos escondamos, 
Nada nos falta, porque nada somos. 
         Não esperamos nada 
         E temos frio ao sol. 

Mas tal como é, gozemos o momento, 
Solenes na alegria levemente, 
         E aguardando a morte 
         Como quem a conhece. 

Ricardo Reis, in "Odes"  



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Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
MAIO 7

 

Houve uma Ilha em Ti


 

 

Houve uma ilha em ti que eu conquistei. 
Uma ilha num mar de solidão. 
Tinha um nome a ilha onde morei. 
Chamava-se essa ilha Coração. 

Que saudades do tempo que passei. 
Nenhum desses momentos foi em vão. 
Do teu corpo, de ti, já nada sei. 
Também não sei da ilha, não sei, não. 

Só sei de mim, coberto de raízes. 
Enterrei os momentos mais felizes. 
Vivo agora na sombra a recordar. 

A ilha que eu amei já não existe. 
Agora amo o céu quando estou triste 
por não saber do coração do mar. 

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum' 



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Domingo, 6 de Maio de 2012
MAIO 6

 

Para Ti


 

Foi para ti 
que desfolhei a chuva 
para ti soltei o perfume da terra 
toquei no nada 
e para ti foi tudo 

Para ti criei todas as palavras 
e todas me faltaram 
no minuto em que talhei 
o sabor do sempre 

Para ti dei voz 
às minhas mãos 
abri os gomos do tempo 
assaltei o mundo 
e pensei que tudo estava em nós 
nesse doce engano 
de tudo sermos donos 
sem nada termos 
simplesmente porque era de noite 
e não dormíamos 
eu descia em teu peito 
para me procurar 
e antes que a escuridão 
nos cingisse a cintura 
ficávamos nos olhos 
vivendo de um só 
amando de uma só vida 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



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Sábado, 5 de Maio de 2012
MAIO 5

 

Fui Sabendo de Mim


 

Fui sabendo de mim 
por aquilo que perdia 

pedaços que saíram de mim 
com o mistério de serem poucos 
e valerem só quando os perdia 

fui ficando 
por umbrais 
aquém do passo 
que nunca ousei 

eu vi 
a árvore morta 
e soube que mentia 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



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Sexta-feira, 4 de Maio de 2012
MAIO 4

A Demora


 

O amor nos condena: 
demoras 
mesmo quando chegas antes. 
Porque não é no tempo que eu te espero. 

Espero-te antes de haver vida 
e és tu quem faz nascer os dias. 

Quando chegas 
já não sou senão saudade 
e as flores 
tombam-me dos braços 
para dar cor ao chão em que te ergues. 

Perdido o lugar 
em que te aguardo, 
só me resta água no lábio 
para aplacar a tua sede. 

Envelhecida a palavra, 
tomo a lua por minha boca 
e a noite, já sem voz 
se vai despindo em ti. 

O teu vestido tomba 
e é uma nuvem. 
O teu corpo se deita no meu, 
um rio se vai aguando até ser mar. 

Mia Couto, in " idades cidades divindades"

 



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Quinta-feira, 3 de Maio de 2012
MAIO 3

 

Houve uma ilha em ti que eu conquistei. 
Uma ilha num mar de solidão. 
Tinha um nome a ilha onde morei. 
Chamava-se essa ilha Coração. 

Que saudades do tempo que passei. 
Nenhum desses momentos foi em vão. 
Do teu corpo, de ti, já nada sei. 
Também não sei da ilha, não sei, não. 

Só sei de mim, coberto de raízes. 
Enterrei os momentos mais felizes. 
Vivo agora na sombra a recordar. 

A ilha que eu amei já não existe. 
Agora amo o céu quando estou triste 
por não saber do coração do mar. 

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum' 



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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
MAIO 2

 

O Amor, Meu Amor 

Nosso amor é impuro 
como impura é a luz e a água 
e tudo quanto nasce 
e vive além do tempo. 

Minhas pernas são água, 
as tuas são luz 
e dão a volta ao universo 
quando se enlaçam 
até se tornarem deserto e escuro. 
E eu sofro de te abraçar 
depois de te abraçar para não sofrer. 

E toco-te 
para deixares de ter corpo 
e o meu corpo nasce 
quando se extingue no teu. 

E respiro em ti 
para me sufocar 
e espreito em tua claridade 
para me cegar, 
meu Sol vertido em Lua, 
minha noite alvorecida. 

Tu me bebes 
e eu me converto na tua sede. 
Meus lábios mordem, 
meus dentes beijam, 
minha pele te veste 
e ficas ainda mais despida. 

Pudesse eu ser tu 
E em tua saudade ser a minha própria espera. 

Mas eu deito-me em teu leito 
Quando apenas queria dormir em ti. 

E sonho-te 
Quando ansiava ser um sonho teu. 

E levito, voo de semente, 
para em mim mesmo te plantar 
menos que flor: simples perfume, 
lembrança de pétala sem chão onde tombar. 

Teus olhos inundando os meus 
e a minha vida, já sem leito, 
vai galgando margens 
até tudo ser mar. 
Esse mar que só há depois do mar. 

Mia Couto, in "idades cidades divindades"




Terça-feira, 1 de Maio de 2012
MAIO 1

Sossega Coração!

Não Desesperes!

Sossega,
coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre
sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega,
coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa

 

Fernando Pessoa

 



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Segunda-feira, 30 de Abril de 2012
30 ABRIL

    As lentas nuvens fazem sono,
    O céu azul faz bom dormir.
    Bóio, num íntimo abandono,
    À tona de me não sentir.

    E é suave, como um correr de água,
    O sentir que não sou alguém,
    Não sou capaz de peso ou mágoa.
    Minha alma é aquilo que não tem.

    Que bom, à margem do ribeiro


    Saber que é ele que vai indo...
    E só em sono eu vou primeiro.
    E só em sonho eu vou seguindo.

 

   Fernando Pessoa



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Domingo, 29 de Abril de 2012
29 ABRIL

 

   Aqui neste profundo apartamento
    Em que, não por lugar, mas mente estou,
    No claustro de ser eu, neste momento
    Em que me encontro e sinto-me o que vou,

    Aqui, agora,  rememoro
    Quanto de mim deixer de ser
    E, inutilmente, [....] choro
    O que sou e não pude ter.

 

    Fernando Pessoa

 


 




Sábado, 28 de Abril de 2012
28 ABRIL

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

 

Cecilia Meireles

 



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